OS POBREZINHOS

Pobres de pobres
são pobrezinhos
Almas sem lares,
aves sem ninhos.
Passam em bandos,
em alcateias,
Pelas herdades,
pelas aldeias.
É em Novembro,
rugem porcelas.
Deus nos acuda,
nos livre delas!
Vem por desertos,
por estivais,
Mantas aos ombros,
grandes bornais,
Como farrapos,
coisas sombrias,
Trapos levados
nas ventanias.
Filhos de Cristo,
filhos d’ Adão
Buscam no mundo
côdeas de pão!
Há-os ceguinhos,
em treva densa,
D’ olhos fechados
desde nascença.
Há-os com feridas
esburacadas,
Roxas de lírios,
já gangrenadas.
Uns de voz rouca,
grandes bordões
Quem sabe lá
se serão ladrões!

Outros humildes,
riso magoado,
Lembram Jesus
que ande disfarçado.
Enjeitadinhos,
rotos, sem pão,
Tremem maleitas
d’olhos no chão
Campos e vinhas!
hortas com flores!
Ai, que ditosos
os lavradores!
Olha fumegam
tectos e lares
Fumo tão lindo!
branco, nos ares!
Batem às portas,
erguem-se as mães,
Choram meninos,
ladram os cães.
Rezam e cantam,
levam a esmola,
Vinho no bucho,
pão na sacola.
Fruta da horta,
caldo ou toucinho
Dão sempre os pobres
a um pobrezinho.
Um que tem chagas,
velho, coitado,
Quer ligaduras
ou mel rosado.
Outro, promessa
feita a Maria,
Deitam-lhe azeite
na almotolia.

Pelos alpendres,
pelos currais,
Dormem deitados
como animais.
Em caravanas,
em alcateias,
Vão por herdades,
vão por aldeias.
Sabem cantigas,
oraçõezinhas,
Contos d’ estrelas,
reis e rainhas.
Choram cantando,
penam rezando,
Ai, só a morte
sabe até quando!
Mas no outro mundo
Deus lhes prepara
Leito o mais alvo,
ceia a mais rara.
Os pés doridos
lhos lavarão
Santos e santas
com devoção!
Para lava-los,
perfumaria
Em gomil
d’ouro a bacia.
E embalsamados,
transfigurados,
Túnicas brancas,
como em noivados,
Viverão sempre
na eterna luz,
Pobres benditos,
amém, Jesus!

Guerra Junqueiro

MENSAGEM DO SANTO PADRE LEÃO XIV
PARA O IX DIA MUNDIAL DOS POBRES
XXXIII Domingo do Tempo Comum
16 de novembro de 2025


Tu és a minha esperança (cf. Sl 71,5)

  1. No meio das provações da vida, a esperança é animada pela firme e encorajadora
    certeza do amor de Deus, derramado nos corações pelo Espírito Santo. Por isso,
    ela não decepciona (cf. Rm 5, 5)…
  2. O pobre pode tornar-se testemunha de uma esperança forte e confiável,
    precisamente porque professada numa condição de vida precária, feita de
    privações, fragilidade e marginalização. Ele não conta com as seguranças do
    poder e do ter; pelo contrário, sofre-as e, muitas vezes, é vítima delas. A sua
    esperança só pode repousar noutro lugar.
  3. A pobreza mais grave é não conhecer a Deus. Recordou-nos isso o Papa
    Francisco quando escreveu na  Evangelii gaudium : «A pior discriminação que
    sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual. Eles têm necessidade de Deus e
    não podemos deixar de lhe oferecer a sua amizade, a sua bênção, a sua Palavra, a
    celebração dos Sacramentos e a proposta dum caminho de crescimento e
    amadurecimento na fé»
  4. (…) embora importantes, todos os bens desta terra, as realidades materiais, os
    prazeres do mundo ou o bem-estar económico não são suficientes para fazer o
    coração feliz.
  5. Consequentemente, a cidade de Deus compromete-nos com as cidades dos
    homens, que, desde agora, devem começar a assemelhar-se àquela. A esperança,
    … transforma o coração humano em terra fértil, onde pode germinar a caridade
    para a vida do mundo… quem carece de caridade não só carece de fé e
    esperança, mas tira a esperança ao seu próximo.
  6. Os pobres não são um passatempo para a Igreja, mas sim os irmãos e irmãs mais
    amados, porque cada um deles, com a sua existência e também com as palavras
    e a sabedoria que trazem consigo, levam-nos a tocar com as mãos a verdade do
    Evangelho. Por isso, o Dia Mundial dos Pobres pretende recordar às nossas
    comunidades que os pobres estão no centro de toda a ação pastoral.
  7. Os pobres não são objetos da nossa pastoral, mas sujeitos criativos que nos
    estimulam a encontrar sempre novas formas de viver o Evangelho hoje.
  8. (…) ajudar os pobres é uma questão de justiça, muito antes de ser uma questão
    de caridade. Como observa Santo Agostinho: «Damos pão a quem tem fome,
    mas seria muito melhor que ninguém passasse fome e não precisássemos ser
    generosos para com ninguém”.
  9. Desejo, portanto, que este Ano Jubilar possa incentivar o desenvolvimento de
    políticas de combate às antigas e novas formas de pobreza, além de novas

iniciativas de apoio e ajuda aos mais pobres entre os pobres. Trabalho, educação,
habitação e saúde são condições para uma segurança que jamais se alcançará
com armas. Congratulo-me com as iniciativas já existentes e com o empenho
que é manifestado diariamente a nível internacional por um grande número de
homens e mulheres de boa vontade.

  1. Confiemos em Maria Santíssima, Consoladora dos aflitos, e com Ela entoemos
    um canto de esperança, fazendo nossas as palavras do Te Deum: «In Te, Domine,
    speravi, non confundar in aeternum – Em Vós espero, Meu Deus, não serei
    confundido eternamente».

Vaticano, 13 de junho de 2025, memória de Santo António de Lisboa, Patrono dos pobres
LEÃO PP. XIV